Oficinas realizadas em Coronel João Pessoa e Ipanguaçu reuniram famílias agricultoras, parceiros e representantes do poder público para compartilhar experiências e conhecer, na prática, a integração entre tecnologias sociais e quintais produtivos agroecológicos.

As oficinas são espaço para troca de experiências e práticas agroecológicas. (FOTO: SEAPAC)
Caio Barbosa – Assessoria de Imprensa | SEAPAC
Natal | Rio Grande do Norte
Os quintais produtivos voltaram a ser espaços de encontro, aprendizagem e construção coletiva na caminhada do projeto Ecoando Agroecologia. Nos dias 6 e 8 de outubro, agricultores e agricultoras acompanhados pelo Serviço de Apoio aos Projetos Alternativos Comunitários (SEAPAC) participaram de duas oficinas nos municípios de Coronel João Pessoa, no Alto Oeste potiguar, e Ipanguaçu, no Vale do Açu. As atividades promoveram a troca de experiências sobre práticas agroecológicas e demonstraram como a integração entre tecnologias sociais e produção de alimentos pode ampliar as possibilidades de autonomia das famílias agricultoras no Semiárido.
Em Coronel João Pessoa, no dia 6, o quintal produtivo de Ozineide e Naldinho recebeu agricultores e agricultoras acompanhadas pelo projeto na região do Alto Oeste. Dois dias depois, em Ipanguaçu, o encontro aconteceu na área produtiva conhecida como “SAF da Família da Resistência”, conduzida por Lourdiana, Margarida Sônia e Bandeira, que acolheram participantes do Vale do Açu para compartilhar experiências e conhecimentos construídos no cotidiano da agricultura familiar.

A integração das tecnologias sociais (biodigestor) criam novas possibilidades de autonomia e renda para agricultura familiar. (FOTO: SEAPAC)
Quintais que ensinam: tecnologias sociais na prática
Nos dois encontros, as famílias puderam observar o funcionamento integrado de três tecnologias sociais presentes nos quintais produtivos: o sistema de reúso de águas cinza, o biodigestor e o secador solar. Mais do que conhecer os equipamentos, os participantes tiveram a oportunidade de compreender como essas soluções podem contribuir para o aproveitamento dos recursos disponíveis, a produção de alimentos e o fortalecimento dos sistemas produtivos familiares.
O reúso de águas cinza permite destinar a água tratada a usos produtivos compatíveis com o sistema implementado. O biodigestor possibilita o aproveitamento de resíduos orgânicos para a produção de biogás e biofertilizante, enquanto o secador solar utiliza a energia do sol para auxiliar na secagem e conservação de alimentos. Quando articuladas ao planejamento dos quintais, essas tecnologias ampliam as alternativas disponíveis às famílias e favorecem uma produção mais integrada às condições do Semiárido.
As oficinas também contaram com a participação de representantes do Banco do Nordeste, da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Rio Grande do Norte (Emater-RN) e do poder público local. A presença de agricultores, equipe técnica e parceiros fortaleceu o diálogo entre diferentes experiências e conhecimentos, contribuindo para a construção conjunta de alternativas adequadas à realidade dos territórios.

30 famílias do Alto Oeste e Vale do Açu estão sendo acompanhadas pelo projeto Ecoando Agroecologia. (FOTO: SEAPAC)
Educação popular e construção coletiva no Semiárido
A troca de saberes foi o eixo central das atividades. Inspiradas nos princípios da educação popular, as oficinas valorizaram as experiências acumuladas pelas famílias agricultoras, reconhecendo os quintais como espaços de produção, experimentação e compartilhamento de conhecimentos. A observação das tecnologias em funcionamento foi acompanhada pelo diálogo sobre práticas agroecológicas e possibilidades de adaptação às diferentes realidades das comunidades.
Essa abordagem se relaciona diretamente com a importância da agricultura familiar para o país. Segundo o Censo Agropecuário 2017, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a agricultura familiar correspondia a 76,8% dos estabelecimentos agropecuários brasileiros e reunia 67% das pessoas ocupadas nesses estabelecimentos. Os dados evidenciam o peso social e produtivo desse segmento e a relevância de iniciativas que contribuam para fortalecer suas condições de produção e permanência no campo.
A valorização da agroecologia também integra as diretrizes das políticas públicas nacionais. O Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Planapo), instituído para o período de 2024 a 2027, prevê ações voltadas à ampliação da produção orgânica e de base agroecológica, à segurança alimentar e nutricional, à segurança hídrica e ao uso sustentável dos recursos naturais. Nesse contexto, a formação das famílias e a implementação de tecnologias sociais nos quintais produtivos representam caminhos concretos para aproximar esses objetivos da realidade rural.

Ao reunir agricultores de diferentes municípios em áreas produtivas que já incorporam práticas agroecológicas e tecnologias sociais, o Ecoando Agroecologia fortalece uma dinâmica de aprendizagem que parte da experiência das próprias famílias. A iniciativa estimula a circulação de conhecimentos entre os territórios e a construção coletiva de alternativas para produzir alimentos, aproveitar melhor os recursos disponíveis e ampliar a autonomia da agricultura familiar no Semiárido potiguar.
Sobre o projeto
O Ecoando Agroecologia é realizado pelo SEAPAC em parceria com o Banco do Nordeste e acompanha 30 famílias agricultoras em nove municípios do Rio Grande do Norte. A iniciativa articula formação, assistência técnica e implementação de tecnologias sociais — entre elas, sistemas de reúso de águas cinza, biodigestores e secadores solares — integradas aos quintais produtivos. Com foco na agroecologia, na educação popular e na convivência com o Semiárido, o projeto busca fortalecer a produção de alimentos e ampliar as possibilidades de desenvolvimento sustentável nos territórios.