Intercâmbios aproximam famílias do Trairi e Seridó potiguar na construção dos Sistemas Agroflorestais

Encontros realizados em Caicó e Cruzeta reuniram famílias agricultoras e transformaram quintais produtivos em espaços de aprendizagem, troca de sementes e construção coletiva

Os primeiros intercâmbios com as famílias do Trairi e Seridó potiguar. (FOTO: Núcleo de Comunicação | SEAPAC)

Caio Barbosa – Assessoria de Imprensa | SEAPAC
Natal | Rio Grande do Norte

A experiência de uma família pode abrir caminhos para muitas outras. Foi a partir dessa perspectiva que os quintais de Dona Helena e Seu José, em Caicó, e de Denise e Damião Santana, em Cruzeta, se transformaram em espaços de encontro, aprendizado e partilha durante dois intercâmbios intermunicipais realizados pelo projeto Mãos que Produzem. Nos dias 23 e 25 de setembro, agricultoras e agricultores de Caicó, Cruzeta, Currais Novos e Lajes Pintadas estiveram reunidos para conhecer experiências em Sistemas Agroflorestais (SAFs), observar tecnologias sociais em funcionamento e compartilhar os conhecimentos construídos no cotidiano da agricultura familiar.

Mais do que apresentar áreas produtivas, as famílias anfitriãs assumiram um papel central na metodologia dos encontros. Seus quintais, onde os primeiros SAFs do projeto começam a ganhar forma, tornaram-se espaços de demonstração e diálogo para outras famílias acompanhadas pelo Mãos que Produzem. Ao caminhar pelas áreas, observar as práticas e colocar a mão na terra, os participantes puderam compreender, de maneira concreta, como diferentes espécies, tecnologias sociais e formas de manejo podem ser organizadas em uma unidade familiar de produção.

Troca de saberes e experiências populares entre agricultoras e agricultores. (FOTO: Núcleo de Comunicação | SEAPAC)

Quando o conhecimento circula entre agricultores
A dinâmica dos intercâmbios foi construída de agricultor para agricultor. Em cada encontro, momentos de debate e prosa coletiva abriram espaço para que as famílias compartilhassem suas experiências, dúvidas e conhecimentos. Depois, o grupo foi a campo para conhecer o funcionamento das tecnologias sociais presentes nas unidades produtivas das famílias anfitriãs e observar os primeiros passos de implementação dos Sistemas Agroflorestais.

Também fizeram parte da vivência a troca de mudas e sementes crioulas e um café comunitário camponês, fortalecendo a dimensão coletiva dos encontros. Nesse movimento, o conhecimento técnico dialogou com os saberes populares, permitindo que cada família olhasse para a experiência da outra como uma possibilidade de inspiração para construir seu próprio caminho.

A proposta está alinhada à perspectiva adotada pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA) no Programa Da Terra à Mesa, que prevê ações de estruturação produtiva para a transição agroecológica, assessoria técnica agroecológica e formação de agentes de transição, tendo as famílias agricultoras como protagonistas do processo.

As primeiras SAFs são exemplos de inspiração para o futuro do Semiárido potiguar. (FOTO: Núcleo de Comunicação | SEAPAC)

A importância dessa construção também encontra respaldo em experiências e estudos da Embrapa. A instituição aponta os Sistemas Agroflorestais como uma alternativa para a agricultura familiar no Semiárido, associando a diversificação produtiva à segurança alimentar e nutricional, à autonomia das famílias e ao uso sustentável dos recursos naturais. Em sistemas agroflorestais desenvolvidos no Semiárido, pesquisas também identificam potencial para ampliar a produção destinada ao autoconsumo durante o período seco. Nesse contexto, o intercâmbio deixa de ser apenas uma atividade pontual e passa a integrar uma estratégia de construção do conhecimento agroecológico.

Mãos que produzem, saberes que se multiplicam
Os dois encontros fazem parte da caminhada do Mãos que Produzem, iniciativa realizada pelo Serviço de Apoio aos Projetos Alternativos Comunitários — SEAPAC, com apoio do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), por meio do Programa Da Terra à Mesa. O projeto tem como objetivo promover a inclusão socioprodutiva de mulheres, jovens e comunidades tradicionais no Semiárido potiguar por meio da estruturação de quintais produtivos em Sistemas Agroflorestais, fortalecendo a agricultura familiar e o desenvolvimento rural sustentável.

O Mãos que Produzem prevê a implementação de 200 Sistemas Agroflorestais em 15 municípios do Rio Grande do Norte, distribuídos pelos territórios do Trairi, Seridó, Alto Oeste e Açu-Mossoró. A iniciativa combina assistência técnica agroecológica, tecnologias sociais, formação e educação popular para acompanhar as famílias na construção de seus sistemas produtivos.

Famílias conheceram o SAF integrado as tecnologias sociais (FOTO: Núcleo de Comunicação | SEAPAC)

A experiência vivida em Caicó e Cruzeta demonstra, na prática, uma das dimensões centrais dessa proposta: criar condições para que as próprias famílias sejam protagonistas da transformação de seus quintais. Ao conhecer uma área que já começa a tomar forma, trocar uma semente, observar uma tecnologia social ou ouvir a experiência de outro agricultor, cada participante amplia suas referências para pensar sua própria unidade produtiva.

No quintal de Dona Helena e Seu José, assim como na área de Denise e Damião Santana, o SAF ainda está no começo — mas já cumpre uma função que ultrapassa os limites de cada propriedade. São áreas que começam a produzir não apenas alimentos e possibilidades futuras, mas também conhecimento compartilhado.

E é nessa circulação de saberes, entre uma prosa, uma muda, uma semente e uma mão que se encontra com a terra, que o Mãos que Produzem vai fortalecendo sua caminhada pelo Rio Grande do Norte.