Oficina realizada em Palheiros II, em Assú, reuniu cerca de 50 participantes em um dia de formação, comunicação popular, práticas agroecológicas e troca de sementes e mudas.
Caio Barbosa – Assessoria de Imprensa | SEAPAC
Assú | Rio Grande do Norte
Entre alimentos produzidos nos quintais, sementes crioulas, tecnologias sociais e conhecimentos compartilhados, cerca de 50 agricultores, agricultoras, técnicos e parceiros se reuniram no dia 28 de agosto, na comunidade rural de Palheiros II, em Assú (RN), para mais uma etapa do projeto Ecoando Agroecologia. A oficina promovida pelo SEAPAC transformou o quintal da família anfitriã em espaço de aprendizagem e troca, aproximando conhecimento técnico e saber popular para fortalecer práticas de produção sustentável e novas possibilidades de convivência com o Semiárido.
O encontro começou com um café camponês coletivo, construído a partir da partilha dos próprios agricultores e agricultoras. Na mesa, alimentos produzidos nos quintais revelavam, antes mesmo do início da programação, a diversidade e a potência da agricultura familiar. O momento também abriu espaço para a troca de mudas e sementes que acompanharia toda a atividade. Em seguida, cada participante se apresentou e compartilhou a muda ou semente que havia levado para o encontro, transformando a apresentação em um primeiro exercício de circulação de conhecimentos e de valorização da biodiversidade cultivada pelas famílias.
A formação também trouxe para o centro da oficina um elemento estratégico para o trabalho do Ecoando: a comunicação popular. Com participação do Setor de Comunicação do SEAPAC, os agricultores e agricultoras refletiram sobre a comunicação enquanto direito humano e sobre a importância de registrar e compartilhar as experiências construídas nos próprios territórios. A proposta foi estimular as famílias a produzirem fotografias e vídeos a partir de sua realidade, mostrando seus quintais, suas práticas e os resultados do projeto sob o olhar de quem vive e produz no Semiárido. Nesse sentido, comunicar também se torna uma forma de fortalecer o protagonismo das comunidades e fazer ecoar seus saberes.

Na segunda parte da oficina, a formação ganhou o campo. A família anfitriã, representada por Andreia Tavares, conduziu, junto à equipe técnica do SEAPAC, uma caminhada pelo quintal agroecológico para apresentar as tecnologias sociais já implementadas. O primeiro ponto visitado foi o sistema de reúso de águas cinza, onde os participantes conheceram seu funcionamento e discutiram a importância de reaproveitar as águas servidas de forma adequada para apoiar a produção. A caminhada seguiu pela área produtiva, com observação dos cultivos consorciados de forrageiras e frutíferas, até o biodigestor e o secador solar — tecnologias que, integradas ao manejo agroecológico, ampliam as possibilidades de produção, aproveitamento de recursos e autonomia das famílias.
A experiência dialoga com um cenário mais amplo da agricultura brasileira. Segundo o Censo Agropecuário 2017, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a agricultura familiar representava 76,8% dos estabelecimentos agropecuários do país e concentrava 67% das pessoas ocupadas nesses estabelecimentos. O mesmo levantamento identificou que sistemas agroflorestais já faziam parte do uso da terra em estabelecimentos da agricultura familiar. A agroecologia também integra as políticas públicas nacionais: o Planapo 2024–2027 estabelece, entre seus objetivos, ampliar a produção de base agroecológica, promover o uso sustentável dos recursos naturais e fortalecer a construção e socialização de conhecimentos por meio da valorização da cultura local e dos intercâmbios.

Ao final do dia, agricultores, agricultoras e parceiros compartilharam impressões, dúvidas e curiosidades sobre as experiências apresentadas. A troca de mudas e sementes crioulas encerrou a atividade reafirmando uma prática que atravessa a metodologia do SEAPAC: conhecimento não é algo que se entrega pronto, mas algo que se constrói, compartilha e transforma a partir da realidade de cada território. Participaram da oficina representantes da EMATER de Assú e Itajá, cooperativas, Secretaria Municipal de Agricultura, Banco do Nordeste e outras organizações parceiras, fortalecendo uma rede local de apoio à agricultura familiar.
Realizado pelo SEAPAC em parceria com o Banco do Nordeste, o projeto Ecoando Agroecologia acompanha 30 famílias agricultoras em nove municípios do Rio Grande do Norte e integra formação, acompanhamento técnico, agroecologia e tecnologias sociais. Ao todo, estão previstas 82 tecnologias, entre sistemas de reúso de águas cinza, biodigestores e secadores solares, articuladas à construção de quintais produtivos. A proposta é integrar soluções adaptadas à realidade do Semiárido com conhecimento técnico e saber popular, contribuindo para a produção de alimentos saudáveis, segurança alimentar, autonomia e melhores condições de convivência com o território.

A oficina realizada em Palheiros II representa, assim, mais um passo de uma caminhada que segue sendo construída junto às famílias. Enquanto as tecnologias ganham funcionamento, os quintais começam a revelar novas possibilidades e os agricultores compartilham aquilo que sabem e produzem, o Ecoando Agroecologia amplia sua rede de formação e participação. No Semiárido, onde cada recurso precisa ser cuidado e cada conhecimento pode fazer diferença, ecoar experiências é também semear novas formas de produzir, comunicar e viver.
