Parceria entre SEAPAC e Sertão Jucurutu implanta reúso de água e fortalece produtores de leite no Seridó potiguar

SEAPAC e Laticínio Sertão Jucurutu inauguram ciclo de tecnologias sociais que fortalecem agricultura familiar, convivência com o semiárido e segurança hídrica das comunidades leiteiras.

Entrega das tecnologias sociais da parceria SEAPAC e Laticínio Sertão Jucurutu. (FOTO: CAIO BARBOSA/SEAPAC)

Caio Barbosa | Assessoria de Imprensa – Seapac
Tenente Laurentino Cruz | Rio Grande do Norte

Embaixo de uma árvore frondosa na serra do Seridó potiguar, a manhã amena de ontem marcou mais que um encontro: simbolizou um novo ciclo de esperança e resiliência socioambiental. Foi ali, junto à família de Francisco Canindé, produtor de leite da comunidade do Muniz zona rural de Tenente Laurentino Cruz, que o SEAPAC, em parceria com o Laticínio Sertão Jucurutu, entregou cinco sistemas de reúso de águas cinzas às famílias envolvidas no projeto piloto — um passo concreto de enfrentamento à crise hídrica no campo e de promoção de práticas sustentáveis no semiárido brasileiro.

“Antes, a água usada na casa simplesmente escorria para este quintal; agora, tô aguando as palmas para garantir o alimento das vacas mesmo na seca”, disse Seu Francisco ao lado do filho Marcelo que estam todo dia juntos no trabalho com as vacas e cuidando da nova tecnologia social.

Sob o pé dessa árvore — que antes acumulava água desperdiçada — hoje respira-se inovação: o que era rejeitado tornou-se fonte de vida. O sistema de reúso trata a chamada água cinza (proveniente de pias, chuveiros e atividades domésticas), canalizando-a para irrigar forragens e plantas frutíferas. Assim, transforma-se em alimento para os animais e reforça a segurança hídrica e alimentar das famílias.

Tecnologia social de reúso de águas. (FOTO: CAIO BARBOSA/SEAPAC)

Saneamento Rural: do desperdício à produção sustentável
A ausência de saneamento básico é alarmante no Brasil rural: dados do Plano Nacional de Saneamento Rural (PNSR) indicam que aproximadamente 53,7% dos domicílios no semiárido dependem de fossas rudimentares e 13,5% sequer possuem banheiro, o que expõe famílias a riscos de saúde e contaminação ambiental. Além disso, quase 30% utilizam água de poços ou nascentes sem garantia de potabilidade — situação que torna ainda mais urgente a adoção de soluções apropriadas ao modo de viver no campo.

Nesse cenário, a iniciativa conjunta entre SEAPAC e Sertão Jucurutu vai além de tecnologia: ela ativa uma estratégia de convivência com o semiárido e de adaptação às mudanças climáticas, fenômeno que intensifica secas prolongadas e pressiona a agricultura familiar da Caatinga — cerca de 79% das propriedades familiares da região e que enfrenta perdas produtivas diante de episódios extremos de escassez hídrica.

Com os sistemas entregues — que também beneficiam famílias de Florânia, Santana do Mato e São Vicente — as famílias deixam de conviver com esgoto doméstico a céu aberto, mosquitos e mau cheiro. Agora, visualizam quintais produtivos, podem irrigar forrageiras para os animais e até cultivos frutíferos para consumo familiar ou comercialização local.

Área de produção de forrageiras que recebe a irrigação do sistema de reúso. (FOTO: CAIO BARBOSA/SEAPAC)

Estudos apontam que o reúso de águas residuais tratadas pode aumentar a renda e a sustentabilidade agrícola de pequenos produtores. Uma pesquisa no semiárido cearense mostrou que famílias que adotam o reúso alcançaram até 21,9% mais renda e 26,8% maiores níveis de sustentabilidade agrícola em comparação às que não utilizam essa prática.

Esse dado científico respalda os resultados observados nas propriedades atendidas pelo projeto: a água que antes escorria sem propósito agora irrigará forragens, alimentará animais e potencializará a produção de leite — um fator que pode significar aumento de renda familiar e maior segurança alimentar regional.

Parceria que inspira e transforma
Para o SEAPAC, essa parceria com o Laticínio Sertão Jucurutu representa um modelo de ação socioambiental escalável: integrar tecnologias sociais, práticas sustentáveis e fortalecimento da agricultura familiar é uma resposta concreta às vulnerabilidades do semiárido brasileiro.

“A água que antes parecia pouca ou descartável agora rega esperança. Quando o campo prospera, toda a comunidade se fortalece”, comentou um Diácono Francisco Teixeira, coordenador estadual do SEAPAC que estava no encontro.

Seu Canindé e o filho Marcelo parceiro no dia a dia do trabalho rural. (FOTO: CAIO BARBOSA/SEAPAC)

A iniciativa destaca que soluções de reúso de água doméstica não são apenas medidas ambientais: são investimentos em dignidade, saúde, economia local e convivência sustentável com o clima adverso.

SEAPAC: 33 anos levando esperança pelo Semiárido potiguar
O SEAPAC reafirma seu compromisso com práticas que aliam tecnologia social, agroecologia, associativismo e soberania alimentar no campo. Projetos como esse caminham alinhados a metas globais de desenvolvimento sustentável — como o uso eficiente da água e a promoção de vida digna das comunidades rurais — e abrem espaço para replicação em outras regiões semiáridas do país.

Ao transformar águas antes perdidas em recursos produtivos, SEAPAC e Sertão Jucurutu escrevem, juntos, um novo capítulo na história da convivência com o semiárido potiguar — onde cada gota conta, e cada família se fortalece.

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