Notícias › 05/08/2016

ENTREVISTA: A tradicional indústria da seca permite que o sertanejo morra de sede com água no joelho

Entrevista especial com João Abner Guimarães

João Abner Guimarães (Foto: apodiariooblog.blogspot.com.br)

João Abner Guimarães (Foto: apodiariooblog.blogspot.com.br)

“Qual a explicação para no Nordeste semiárido se disponibilizar água para irrigação durante um evento com criticidade secular? Ou se tem muita água – ao contrário do que se propaga, ou não se tem gestão, ou as duas coisas”, afirma o engenheiro hidráulico. A atual seca no Nordeste – NE Setentrional brasileiro “tem posto em xeque o sistema de gestão dos recursos hídricos”, e na parte interiorana do Rio Grande do Norte “se repete o quadro de colapso generalizado do abastecimento de água retratado no semiárido brasileiro, apesar de atualmente constatarem-se reservas substanciais de água para atender plenamente o abastecimento de água de toda população do Estado”, diz João Abner Guimarães à IHU On-Line.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, Guimarães informa que a “abordagem governamental” diante da seca tem sido “a tradicional”, ou seja, “os governos municipais e estaduais, após decreto de emergência, se livram das suas responsabilidades, levando a uma dependência quase que total das políticas governamentais aplicadas na região semiárida pelo governo federal, que se desenvolvem com dois tipos de abordagem: as ações emergenciais precárias de abrangências locais e as macropolíticas que pouco enxergam as diversidades regionais”. Segundo ele, entre as políticas desenvolvidas, “contraditoriamente, assegura-se 100% de garantia” de abastecimento “para os maiores projetos de irrigação, enquanto faltam meios (sistemas adutores de grande porte) para assegurar essa mesma garantia ao consumo humano das pequenas e médias cidades que são abastecidas pelos reservatórios menores”.

Para João Abner Guimarães, a atual gestão dos recursos hídricos na região está relacionada à história da indústria das secas, que tem “promovido o desenvolvimento insustentável na região”. Além da prioridade da irrigação em larga escala, o pesquisador afirma que “desde o Império a política hidráulica do governo federal permanece a mesma no NE como uma reserva de mercado do parque da indústria da construção civil pesada do Brasil, que tem como principal interesse o desenvolvimento de projetos de obras hídricas tradicionais, tais como a construção de grandes açudes e canais, seguindo um plano interminável de obras em que, com a limitação de locais para a construção de novos açudes, as transposições dão continuidade”.

João Abner Guimarães Júnior é doutor em Engenharia Hidráulica e Saneamento, professor nos cursos de Engenharia Sanitária e Engenharia Civil da Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN. Sobre a transposição do Rio São Francisco, publicou diversos artigos, tais como A transposição do Rio São Francisco e o Rio Grande do Norte, O lobby da transposição e O mito da transposição.

IHU On-Line - Qual é a situação da seca no Rio Grande do Norte neste momento?

João Abner Guimarães - O Rio Grande do Norte apresenta-se em melhor situação comparativamente aos outros estados do NE Setentrional – compreendidos entre os rios São Francisco e Parnaíba -, tendo em vista que a maior parte (60%) da sua população urbana situada no litoral leste, onde se encontra a região metropolitana de Natal, e a região intermediária agreste é abastecida por sistemas hídricos do litoral pouco afetado pela seca. O mesmo acontece com a metade da população restante que é atendida por sistemas adutores de grande porte, que captam água dos maiores e mais seguros reservatórios do interior do Estado.

Por outro lado, apenas na parte interiorana do Estado, que não é atendida por sistemas adutores de maior porte, é que se repete o quadro de colapso generalizado do abastecimento de água retratado no semiárido brasileiro, apesar de atualmente constatarem-se reservas substanciais de água para atender plenamente o abastecimento de água de toda população do Estado.

Clique no link para ler a entrevista completa: http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=89432

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