Artigos › 25/07/2016

ARTIGO: De Onde vem a Crise Hídrica? E Pra Onde Vamos?

Eng. Agrônomo José Procópio de Lucena (Foto: José Bezerra)

Eng. Agrônomo José Procópio de Lucena (Foto: José Bezerra)

O modelo histórico de desenvolvimento brasileiro e, em particular, do semiárido, baseado na extração intensiva da natureza, na concentração do poder, da terra, da água, da renda e da riqueza, tem agravado fortemente as injustiças sociais e ambientais. O uso irracional dos recursos naturais tem provocado desastres ambientais e fortes crises hídricas. Voltada para os lucros imediatos, a exploração capitalista se move por uma lógica de curto prazo, o que é incompatível com o tempo de recuperação da natureza. O resultado tem sido a contaminação do solo, do ar e da água, a devastação dos biomas, o aumento da temperatura do planeta e o esgotamento dos recursos necessários à sobrevivência e a saúde humana.

Com a crise hídrica atual, tenho assistindo certos setores da sociedade defenderem a privatização dos serviços de abastecimento d’água. Esse pensamento está em sintonia com as empresas transnacionais que procuram incutir na opinião pública a ideia da água como mercadoria de grande valor econômico, capaz de tornar-se uma fonte de renda para um país como o Brasil. Com isso, tenta-se retirar da água a sua dimensão de direito humano essencial, fundamental, universal e seu caráter vital. No Brasil, privatizar água é privar os pobres do seu acesso. Significa negar-lhes o direito à vida radicada na sua dignidade inalienável, sua dimensão de justiça socioambiental. Quem se opõe a esta ideologia é rotulado como contrário ao progresso. Porém, é na defesa da água como direito e bem comum que reside a possibilidade de salvarmos o planeta Terra – Planeta Água – da ganância de poucos e assegurarmos a vida das gerações futuras. Se assim não for, a água deixará de ser direito de todos os seres vivos, criando-se um impasse ético e uma tragédia: a dos excluídos da água.

Sem uma visão sistêmica do ciclo das águas e sem uma ética do uso da água que implique o cuidado dos mananciais, comprometeremos sempre mais o abastecimento humano, a dessedentação dos animais e os demais usos, como determinam a lei brasileira de recursos hídricos de nº 9.433/97. O Brasil não tem nenhuma política de educação e ética do cuidado com nossos mananciais ou a utilização de nossas águas. Mesmo quando a questão é abordada, simplesmente prefere-se transferir o problema para os consumidores domésticos, exatamente a parte menos influente na crise.

A imprensa tem remetido a “crise hídrica” pura e simplesmente à falta de chuvas. Mas precisamos entender que a questão é mais profunda e envolve a falta de integração de políticas públicas, uma boa gestão das águas, fortalecimentos do sistema de recursos hídricos, cuidado com rios, açudes, riachos, bacias hidrográficas, vegetação, ecossistema, biodiversidade etc, além do desmatamento desenfreado, contaminação de águas, exploração da monoculturas, uso de venenos. Não teremos como garantir água de qualidade para todos os usos e principalmente para o consumo humano sem estes cuidados.

Esperamos que com essa crise hídrica atual a sociedade faça mudanças de comportamento e atitudes em relação ao consumismo/produtivismo e aos cuidados com a natureza e o uso da água. Que os governos e a sociedade coloquem o financiamento de ações estruturantes e permanentes de estoque de água, bem como a execução dos planos de recursos hídricos, a participação social e a gestão da água como prioridade estratégica, inclusive, levando de forma sistemática essa discussão para a agenda da sociedade, da classe política, da escola e da juventude.

Entendo que o direito a um meio ambiente saudável e o direito à água estão intrinsecamente ligados e são um direito humano que deve ser garantido pelo Estado, por meio de políticas econômicas, sociais, hidroambientais e culturais, tal como conquistado na Constituição Federal de 1988, sendo incompatível com propostas nas quais os tratem como negócio ou mercadoria.

Engenheiro Agrônomo José Procópio de Lucena

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